Sobrecarga de ferro (Hemocromatose) – Entrevista com o Dr. Francismar Prestes Leal

Inaugurando nossa sessão de colaboração dos médicos, damos início a entrevista com o Dr. Francismar Prestes Leal, médico hematologista.

Foto do Dr. Francismar Prestes Leal

Sobrecarga de ferro (Hemocromatose): Perguntas frequentes e respostas simples, baseadas na literatura médica.

  1. O que é “sobrecarga de ferro”? É uma condição que ocorre se o corpo absorve ou recebe muito ferro durante muito tempo, o qual pode se acumular em células, tecidos e órgãos, lesando-os ou não.
  2. O que causa sobrecarga de ferro? Esta sobrecarga geralmente ocorre como resultado de mutações genéticas que fazem com que o corpo absorva mais ferro do que o necessário. Com menor frequência, a sobrecarga de ferro pode ocorrer como complicação de doenças do sangue, transfusão crônica de sangue, hepatite crônica ou ingestão excessiva de ferro (suplementos ou medicações).
  3. A sobrecarga de ferro é perigosa? Sim, porque pode se tornar um grave problema de saúde (cirrose hepática, por exemplo). A chave para prevenir isto é o diagnóstico e o tratamento precoces.
  4. Como posso fazer o teste de sobrecarga de ferro? Exames de sangue podem medir os níveis de ferro do seu corpo. Os testes são relativamente simples e podem ser feitos na maioria dos laboratórios. O nível sérico de ferritina parece ser o exame mais sensível para o diagnóstico e o seguimento da sobrecarga de ferro, porém os resultados devem ser interpretados com cautela, por um médico experiente no assunto.
  5. O que é hemocromatose? É a doença que ocorre como resultado da sobrecarga de ferro. Ela pode ter causas genéticas ou não. Quando a doença é genética, é chamada de hemocromatose hereditária, estando associada geralmente a mutações no gene HFE, sendo a transmissão habitualmente autossômica recessiva.
  6. Quantas pessoas têm hemocromatose? Nos Estados Unidos, milhões de pessoas têm mutações genéticas que podem causar hemocromatose, o que pode ser extrapolado para o Brasil. Estas mutações são mais comuns em pessoas cujos antepassados vieram da Europa. Nem todas as pessoas com estas mutações genéticas desenvolvem sobrecarga de ferro, e nem todas as pessoas com sobrecarga de ferro desenvolvem sintomas ou sinais clínicos de hemocromatose.
  7. Quando é que as pessoas com hemocromatose começam a ficar doentes? A idade varia de pessoa para pessoa. Algumas pessoas ficam doentes mais cedo, outras mais tarde, dependendo das causas subjacentes e das doenças associadas. Geralmente os sintomas começam depois dos 30-40 anos de vida.
  8. Quais são os primeiros sintomas da hemocromatose? Os primeiros sintomas podem incluir fadiga, fraqueza, perda de peso, dor nas articulações ou dor abdominal. Entretanto, não existe um conjunto definido de sintomas para indicar que uma pessoa tem muito ferro. Diagnosticar hemocromatose é difícil porque os sintomas são semelhantes aos de muitas outras doenças.
  9. O que acontece se eu não tratar? Se não for tratada, a hemocromatose pode levar a estas condições (dentre outras tantas ainda sob investigação): cirrose do fígado (chance 20 vezes maior); câncer de fígado; doença cardíaca (arritmias); diabetes; doenças da tireóide; artrite (ou artralgia); redução de libido, impotência ou infertilidade (menopausa precoce em mulheres); escurecimento da pele (raro hoje em dia).
  10. Como se trata a hemocromatose? Através de flebotomias (ou sangrias) terapêuticas, ou com quelantes de ferro naqueles que não podem fazer sangrias por alguma razão.
  11. O que é uma flebotomia (ou sangria)? É o mesmo procedimento que é usado quando se doa sangue, porém o sangue acaba sendo desprezado por questões legais (nacionais).
  12. É segura? Sim, a flebotomia é segura, simples e eficaz. Uma vez que flebotomias serão feitas com frequência, o médico irá monitorar a sua saúde mais de perto do que se estivesse apenas doando sangue.
  13. Quantas vezes devo fazer flebotomia? Depende de quanto ferro se acumulou em seu corpo. A maioria das pessoas faz até uma sangria por semana durante meses, mas cada caso é um caso.
  14. Devo fazer flebotomias pelo resto da vida? Provavelmente sim. A boa notícia é que, após o ferro ser reduzido para um nível seguro (ferritina < 50 ng/mL), as flebotomias são feitas com menos frequência, geralmente poucas vezes por ano.
  15. Onde posso fazer as flebotomias? Em hemocentros ou bancos de sangue. Eventualmente em hospitais ou outras unidades de saúde.
  16. A flebotomia tem efeitos secundários? A maioria das pessoas se sente muito bem, mas outros se sentem cansados depois de uma sangria. É uma boa ideia beber mais líquidos (sucos, água) antes e após uma flebotomia e não fazer esforços físicos intensos no mesmo período.
  17. E se eu não tolerar as flebotomias ou não puder fazê-las? Neste caso, como já vimos, podem ser usados quelantes de ferro, ou seja, remédios que eliminam o excesso de ferro pela urina ou pelas fezes. Estes remédios são muito caros e só são liberados pela Saúde Pública sob critérios específicos, além de terem efeitos colaterais potenciais bastante graves.
  18. A minha família pode ter hemocromatose? Se a doença é hereditária, seus pais, avós, irmãos ou filhos também podem ter.
  19. Como posso ajudar a minha família? Contando aos seus parentes que você tem hemocromatose (sobrecarga de ferro) e que eles podem ter também. Incentive os membros da família a consultar um médico para dosar os seus níveis de ferro. Quanto mais cedo eles souberem que têm hemocromatose, melhor. As pessoas que começam o tratamento precocemente podem se manter saudáveis.
  20. Qual a probabilidade de que meus filhos tenham hemocromatose? Isso é difícil de responder, porque os filhos herdam genes de ambos os pais. De fato, se alguém na família tem hemocromatose,.é importante que todos os membros próximos da família (pais, avós, irmãos, filhos e netos) vejam os seus níveis de ferro. O diagnóstico precoce melhora as chances de terem vidas longas e saudáveis.
  21. O que posso fazer para me manter saudável?
  • Exames: Tenha a quantidade de ferro do seu sangue testada regularmente.
  • Flebotomias: Faça flebotomias quando você precisar delas (indicação do médico).
  • Alimentação: Não coma peixes crus ou mariscos crus. O cozimento destrói os germes nocivos às pessoas com hemocromatose. Comer alimentos que contenham ferro é bom, mas use o bom-senso (veja o item 22; não “corte” os alimentos de forma alguma!).
  • Suplementos com ferro: Não tome comprimidos com ferro ou suplementos multivitamínicos que têm ferro.
  • Vitamina C: A vitamina C aumenta a quantidade de ferro que seu corpo absorve. Assim, não tome pílulas com mais de 500 mg de vitamina C por dia. Comer alimentos com vitamina C é bom, mas não os misture com alimentos ricos em ferro (2-3 horas longe).
  • Álcool: Se você optar por beber álcool, beba muito pouco. Se você tiver danos no fígado, não deve beber álcool.
  • Exercício: Você pode se exercitar tanto quanto quiser, respeitando a sua condição física. O CDC recomenda que todo mundo faça 30 minutos de exercício por dia para ficar em forma e saudável.
  1. Quais são as fontes naturais de ferro?
  • O ferro “heme” ou orgânico se encontra mais abundantemente nas carnes vermelhas, principalmente fígado, rim e outras vísceras, carnes de aves e de peixes, mariscos e em menor concentração na gema de ovos. Leite não é boa fonte de ferro, a não ser os leites enriquecidos com ferro. Este tipo de ferro (animal) é o melhor absorvido pelo organismo (até 30% do ingerido).
  • O ferro vegetal é chamado de “não heme”, sendo mais abundante nos vegetais folhosos escuros: agrião, couve, espinafre (também é rico em oxalato, que inibe a absorção do ferro), rúcula, salsinha (salsa), etc. Também é encontrado em nozes, pistache, castanhas, semente de abóbora, gérmen e farelo de trigo, açaí, frutas secas, lentilha, grão-de-bico, feijões, melado de cana, rapadura, açúcar mascavo e beterraba (a beterraba contém pouco ferro em sua composição, mas como é rica em folatos e vitamina C, pode-se dizer que ela é uma boa fonte de ferro). Absorvemos até 7% deste tipo de ferro (vegetal).
  1. Pessoas com hemocromatose podem doar sangue? Sim e não. Não há nenhuma razão médica pela qual o sangue de pessoas “saudáveis” com hemocromatose não deva ser usado para transfusões, mas legalmente isto ainda não é possível no Brasil. Se você estiver interessado em doar o seu sangue, faça contato com o banco de sangue diretamente para descobrir sobre as suas políticas.
  2. Como saber mais? Uma das melhores coisas que você pode fazer quando você descobre que tem algum tipo de doença ou tendência é aprender tanto quanto você puder sobre estas. Converse com o seu médico sobre o que esperar.

Fontes: CDC; EASL Clinical Practice Guidelines for HFE Hemochromatosis 2010; Leal FP et al. Hemocromatose: uma atualização de conceitos.  Bras J Surg Clinical Research (BJSCR) 2013;1(1):18-26.

Dr. Francismar Prestes Leal (CRM/PR 18829), médico hematologista (UFSM/UNIFESP), consultório na Av. São Paulo, 1061 (Aspen Park Trade Center), Sala 1412 (14º Andar), Maringá/PR, CEP 87013-040; Fone: 44-3269-8538; fp.leal@uol.com.br; www.facebook.com/drfrancismarprestesleal
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